quinta-feira, 26 de maio de 2016

O dia em que eu me deparei com um Homem no lixo em Curitiba

Quinta-feira, 26 de maio de 2016. Feriado de Corpus Christi. No Centro de Curitiba, um corpo humano vivo adormecido em meio ao lixo, na rua. 

 

Interrompo imediatamente o trajeto e me lembrando que o antigo módulo da PM na Praça Osório, agora é um posto da FAS, dirijo-me incontinenti para lá, a fim de pedir que retirem do lixo o homem desmaiado.

 

No posto sou prontamente atendida pelo Assistente Social Estevão, que me dá conta de que acabaram de receber uma solicitação quanto ao homem dormindo no lixo e que já estavam saindo para atender.

 

Respiro aliviada que outr@s morador@s não tenham passado por ali indiferentes, diante do humano no lixo.

 

Sou gentilmente convidada a acompanhar a operação, e me identifico como blogueira e advogada.

 

Na rua dizia-se que o homem no lixo era Diego, um jovem esquizofrênico que também faz uso de crack. Ele tinha revirado o lixo pra comer e na sequência caíra em estado de profunda letargia, como mais um pacote de lixo, em meio aos vários sacos lotados que rasgara para comer.

 

Soube que quando está consciente, quase sempre se nega a ser levado para o abrigo, dado ao seu quadro de saúde mental.












Enquanto Estevão e a Educadora que o acompanhava iluminavam a pupila de Diego para examiná-la, um outro homem, também jovem, se aproximava da Kombi da FAS  e pedia para ser igualmente albergado.


   

Era Edilton, em visível estado de lúcida consciência.

 

Dentro do carro da FAS, enquanto nos dirigíamos ao albergue da Av. Getúlio Vargas, conversei com Estevão e identifiquei seus conceitos libertários. Vi ali, assim como sempre tentei ser, também um discípulo de Paulo Freire e isso me alegrou a alma.

 

Também aprendi, com Estevão, que a referência para os dois homens que estávamos encaminhando para o abrigo era “usuários”, não porque fossem usuários de droga, mas porque, como pessoas que recebiam os serviços públicos da assistência social da municipalidade, eram sujeitos e, portanto, usuários – da FAS.

 

Igual conceito, prosseguiu Estevão, já é aplicado pela Caixa há tempos, que ao invés de chamar de clientes, denomina de usuários os sujeitos.

 

“Cliente dá uma ideia de passividade. As pessoas não são objetos e sim sujeitos na relação com o serviço público”.

 

Não pude deixar de ponderar que todos esses conceitos libertários são oriundos dos governos de Lula e Dilma. É por isso que os querem derrubar e extirpar o PT da face da terra, onde já se viu, governos populares que tornam as pessoas em atrizes e atores? A casa grande não iria mesmo se calar, sem tentar golpear-nos vil e covardemente, como vem fazendo, auxiliada por outros atores, como o judiciário, o legislativo e a mídia...

 

O abrigo da Av. Getúlio Vargas é terceirizado, por isso não entrei, pois a minha entrada exigiria outras burocracias que não saíra preparada para enfrentar, mas conversei com Edilton antes que ele entrasse, enquanto levavam Diego lá pra dentro, desmaiado.

 

“Estou na rua há um mês”, me disse Edilton, segurando seu cobertorzinho, e também me contou que perdeu a esposa há oito anos, ficando só, com quatro filhas.

 

“Minhas filhas estão hoje com a minha sogra, deixei a casa para elas e sai”, completou o homem, de aspecto muito jovial e otimista. “Sou impressor gráfico, sempre trabalhei e tenho a certeza de que vou sair dessa”.

 

O crack, misturado com maconha e bebida é o que ele chama de “mesclado”.

 

Abracei Edilton lhe desejando que se cure.

 

Pessoas chegavam, trazidas por assistentes sociais ou não, tentando entrar até as 20h30, que me pareceu ser a hora em que fecha o abrigo e ai não podem entrar mais.

 

Na maioria homens, um deles pedindo que se acuda outro homem “ali na esquina capotando”.

 

Homens vigorosos. Adoecidos.

 

O albergue da Getúlio Vargas tem capacidade para 250 pessoas e é ali que se realiza uma espécie de triagem, a partir da qual, os usuários da FAS são sujeitos de outros encaminhamento como CRAS, CREAS, postos de saúde, UPAs, hospitais... Há uma casa de passagem que contempla a questão de gênero, para a qual, após a triagem, podem ser encaminhas as Mulheres e LGBTs e  em situação de violência doméstica.


Nesse sentido, me chamou a atenção o fato de que as usuárias da casa de passagem, quase sempre precisam de atendimento jurídico, para lidarem com suas questões pontuais.

 

Nas questões envolvendo indígenas e quilombolas, é obrigatória sempre a presença de um profissional da Antropologia.


Políticas públicas que são reflexo dos governos federais brasileiros nos últimos 13 anos e que usurpadores querem golpear...

 

Como advogada e pessoa comprometida com a questão da democratização do acesso à Justiça, tentarei conhecer como isto tem sido oferecido às usuárias e, também, aos usuários que são comumente atendido pelo excelente trabalho da FAS em Curitiba.



Ouso a sonhar que poderíamos ter unidades Administrativas da PMC aptas a oferecer Assistência Judiciária e Jurídica formada a partir dessas bases administrativas multidisciplinares transversais de profissionais do Direito em atuação conjunta com profissionais do Serviço Social, da Pedagogia, da Psicanálise, da Psicologia, da Antropologia.

 

A cidade que eu quero promove amplo acesso à Justiça.


A cidade que eu quero tem solidariedade e investe em saúde mental.



Por Tânia Mandarino.

domingo, 22 de maio de 2016

URGENTE. JUIZ PROÍBE ENTRADA DE ATIVISTAS DE DIREITOS HUMANOS NA FAZENDA SANTA MARIA




O Juiz Geraldo Dutra, da comarca de Foz do Iguaçu, proibiu na tarde de ontem, a entrada dos defensores dos direitos humanos que estavam levando ajuda humanitária às famílias dos agricultores sem terra despejados ​da Fazenda Santa Maria. 

Duas equipes de ativistas de direitos humanos foram impedidas de entrar no local onde homens, mulheres e crianças estão sendo vítimas uma verdadeira operação de guerra. 

Casas, móveis e roupas sendo destruídos por uma retroescavadeira e caminhões basculantes fornecida pelos donos da fazenda (por sinal, envolvidos na Operação Lava Jato) e pelo prefeito de Santa Terezinha de Itaipu. 

A proibição é mais uma forma de pressão sobre os agricultores, que desde terça-feira vêm sendo evacuados e suas casa e hortas destruídas.














segunda-feira, 2 de maio de 2016

Carta do Padre Giuseppe Pelizzari à imprensa sobre o assassinato de Sem Terras em Quedas do Iguaçu/PR.

E CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ” (João 8:32) 

Prezados/as Diretores/as do “Correio do Povo do Paraná”, Como assinante do seu Jornal, gostaria de manifestar minha indignação em relação à matéria veiculada no dia 12 de abril passado: “PRESENÇA DE MEMBROS DA APP SINDICATO EM ATO DO MST CAUSA REVOLTA EM QUEDAS” Mas uma vez me deparo com conteúdos que miram, a meu ver, não informar corretamente acerca dos fatos, mas sim confundir os leitores (e a população em geral) com notícias parciais, tendenciosas e inverídicas. Antes de tudo, parabenizo os integrantes da APP que tiveram a coragem de manifestar publicamente seu repúdio à ação violenta da PM do Estado que fuzilou covardemente dois pais de família (Leonir Orback deixou a esposa grávida de nove meses e Vilmar Bordim que deixou três filhos), coragem manifesta após os fatos registrados em Curitiba, no mês de abril do ano passado, onde milhares de professores foram reprimidos de forma vil e violenta pela mesma PM. Seu jornal fala, erroneamente, que naquela ocasião houve confronto entre as forças repressoras do Governador e os professores manifestantes. 

Não houve confronto e sim ataque por parte da PM. Isso foi noticiado até pela imprensa estrangeira. A posição expressa pelo Correio do Povo, em mérito a esses fatos, não deixa dúvida: Seu jornal não está do lado dos trabalhadores. Aplaudo a presença dos integrantes da APP no ato organizado em Quedas do Iguaçu porque acredito que todas as classes de trabalhadores, quando se solidarizam com quem está em dificuldade, seguem a risca o mandamento de Jesus “Tinha fome e me destes de comer, tinha sede e me destes de beber, fui estrangeiro e me acolhestes, era nu e me vestistes, estava doente e fostes me visitar, preso e foste me ver” (MT 25:35). 

Lembro que o Cardeal Mons. Loris Capovilla (secretário particular do Santo Papa João XXIII), numa homilia proferida na minha cidade de origem, trinta anos atrás, dizia: “Estou aflito com as classes trabalhadoras e seus representantes sindicais. Antigamente quando os mineiros de Carbonia entravam em greve, os do setor siderúrgico de Taranto se solidarizavam com eles participando da greve. Quando os trabalhadores da indústria têxtil da Lombardia entravam em greve por melhores condições de trabalho e salariais, os trabalhadores dos canteiros navais de Mestre os apoiavam e aderiam à greve... Agora é cada um por si. Não há mais aquela solidariedade”. 

Parabéns Professora Marlei Fernandes de Carvalho e os demais que se fizeram presentes no ato contra a repressão fascista do Estado do Paraná. É interessante notar que, na matéria do Seu jornal, só aparece o nome dela e não os nomes de quem, sorrateiramente, andou fotografando os veículos da APP. O seu jornal diz que foi uma forma de preservá-los. Preservá-los de que? Esses educadores sindicalizados que não tiveram coragem de manifestar sua solidariedade com quem estava na dor e angústia precisam ser preservados? Eles afirmam – segundo a matéria – que os integrantes da APP foram movidos por “interesses escusos”! Denunciar o fuzilamento planejado de dois agricultores acampados seria um ato escuso? O que mais me enche de espanto, entretanto, é a posição assumida pelo seu jornal a respeito dos fatos ocorridos em Quedas do Iguaçu, fatos referentes ao assassinato de Leonir e Vilmar, ambos trabalhadores rurais acampados desde o ano passado. 

Sempre apareceu claro e notório que a impressa no Paraná (e não somente) defende os interesses do agrobusiness e não os da agricultura familiar que, diga-se de passagem, é aquela que põe na mesa de todos nós brasileiros 83% daquilo que consumimos. Mas, devido a gravidade dos fatos, teria me agradado receber uma informação imparcial a respeito. Quando digo imparcial, me refiro ao espaço que seu jornal deveria ter dado a ambas as partes: ao Governo do Estado e aos trabalhadores acampados. Coisa que não aconteceu até o momento presente. Na página 07 do Seu jornal leio na matéria que tem como cabeçalho “LÍDER DO MST FAZ AMEAÇAS AO PREFEITO JACARÉ. Após o incidente envolvendo membros do MST e a PM...”. Incidente? Quem foi o gênio que teve a ousadia de definir como “INCIDENTE” um fuzilamento pelas costas, fruto de uma tocaia planejada em loco e, dias antes, pelo Secretário de Estado da Casa Civil e Secretário de Segurança (sic”)? 

Eu me pergunto se, quem escreveu se atendeu à versão da PM ou se foi no lugar da chacina averiguar pessoalmente os fatos e indícios (até o nome de Leonir Orback foi escrito errado). A minha vontade seria de enviar ao Seu jornal as fotos que registram os fatos daquela quinta feira 7 de abril. Elas falam por si mesmas! Movido pelo meu Ministério, estive visitando as famílias acampadas no dia seguinte aos assassinatos. Pude abraçar a esposa de Leonir e celebrar o funeral do marido de 25 anos de idade. Aparecia evidente um furo provocado por uma bala que entrou por traz e saiu pela testa do agricultor. É provável que, devido ás ameaças proferidas pela PM (“se levardes o caixão para o acampamento vai correr mais sangue ainda”), a família de Vilmar preferiu levar seu ente querido para ser sepultado no cemitério da cidade de origem. 

Em todo o acampamento se respirava um ar de revolta pela violência perpetrada pela PM do Estado e uma vontade comovente de não desistir, de não largar a luta pela conquista da terra. Creio que somente a presença do Espírito do Senhor possa ter inspirado naquelas famílias Esperança e Fé para continuar naquele lugar. Lamento não ter lido, em nenhuma parte, em Seu jornal uma expressa solidariedade ás famílias que perderam seus familiares. Essa falta de humanidade demonstra que Seu jornal é parcial e não cumpre com a função social que prega. Jornalismo desse tipo faz mal! No dia seguinte ao funeral de Leonir, estive presente no ato de Desagravo, na praça da cidade de Quedas do Iguaçu. Foi minha obrigação introduzir o Ato com uma celebração. Junto comigo estava o amigo Reverendo Anglicano e a corajosa Irmã Lia. 

Presenciaram também a Sra. Senadora Gleisi Hoffmann e um nutrido grupo de deputados estaduais e federais provindos de diversos Estados da Federação. Havia também inúmeros representantes de entidades sociais, sindicais e de pastorais da Igreja Católica. O que nós podemos presenciar foi o grito pacífico e civil de milhares de pessoas clamando por justiça. Antes do evento acontecer, estive num barzinho limítrofe á praça para tomar um cafezinho. Fiquei horrorizado com aquilo que ouvi de algumas pessoas que encontravam-se no local: “mataram só dois, tinham que matar uns milhares”! Essas pessoas terão que prestar conta, ao menos, a Deus pela blasfêmia que proferiram. 

Certo é que as falas vieram de pessoas mal informadas e sua ignorância demonstra que o preconceito é formado e nutrido também por uma informação facciosa e parcial. Continuando na análise da matéria citada, Seu jornal omite o nome do suposto ameaçador, líder do MST, cujas palavras chegaram ao prefeito da cidade em tom de ameaça por intermédio de um servidor municipal. Quem é o líder que ameaça? Qual é o nome do servidor? Que ameaças são essas? Se a ameaça foi interceptada e gravada pela polícia, por que não foi noticiada pela matéria? 

Lembro muito bem que, de forma ilegal, a PF interceptou uma ligação da presidenta Dilma e, poucas horas depois toda a Nação sabia dos conteúdos graças ao repasse feito pela PF à Globo. E nós não temos o direito de ser informados acerca do conteúdo das ameaças? Quem ameaça tem que ser investigado e preso, caso seja comprovada a existência do crime e a culpa. Todavia, imputar crime de forma genérica e sem um mínimo de averiguação, contra um suposto “líder do MST”, pode ser considerado calúnia, isto também é punível. “As pessoas de bem não precisam temer a Policia”, afirma na matéria do seu jornal o Sr. Prefeito Jacaré. Não precisam? Gostaria de ver o Sr. Prefeito falar isso para as viúvas e os órfãos que a PM deixou no acampamento Dom Tomás Balduíno! 

Famílias que ocuparam uma terra pública roubada há décadas pelo agronegócio e que, olha o caso, poucos dias depois dos assassinatos foi – em parte – destinada à reforma agrária pela Justiça Federal reconhecendo, dessa forma, que foram furtadas pela Araupel. A matéria do seu jornal termina definindo erroneamente, mais uma vez, como “confronto” aquilo que todos os indícios indicam ter sido uma emboscada planejada nos gabinetes e promovida, em seguida, pela PM do Estado. Não houve feridos do lado da PM e dos jagunços da Araupel. Não houve disparos por parte dos agricultores contra as forças policiais. Após dias de isolamento no HU de Cascavel, onde a PM impediu o acesso dos familiares, dos advogados e até de uma assistência espiritual, o agricultor ferido foi provavelmente, sob pressão, obrigado a falar inverdades, tendo em vista que se sua vida estava em perigo. Mas isso nem passou pela cabeça do Editor da matéria. 

O agricultor ferido a bala e algemado na cama pela PM estava sedado e sob efeitos de fortes medicamentos. No depoimento dado pelo agricultor, a PM impediu a assistência jurídica, fato gravíssimo que fere o direito constitucional. Como padre sinto-me em dever de afirmar o que o Evangelho anuncia ainda hoje: “E conhecerei a verdade e a verdade vos libertará”! (João 8:32) Um jornalismo responsável não pode se esquivar dessa responsabilidade. 

Como Católicos fomos convidados pelo Papa Francisco a “viver” o ano da Misericórdia. A misericórdia é um sentimento gerado pela compaixão da miséria do próximo. A palavra misericórdia vem do latim misereor (tenho piedade) e cordis (coração). É uma Virtude Moral tida em grande consideração pela Ética Cristã. 

Em verdade, Jesus quer nos dizer que “temos que ter em nosso coração os míseros” (não a miséria!).

Os soldados que atiraram no Vilmar e Leonir e aqueles que os mandaram terão que fazer as contas com a Falta de Misericórdia. Quem escreve errado também. E também quem foi chamado a ser Pastor do Rebanho do Senhor... e não se fez presente quando os lobos apareceram. Logo na entrada do acampamento Dom Tomás Balduíno há uma placa que diz “EM BUSCA DE UM SONHO”. Filhos e Filhas de Deus que estão a caminho em busca de uma vida digna fazem parte da realização do Sonho de Deus. 

Diego Giuseppe Pelizzari Sacerdote Missionário 
Laranjeiras do Sul 24 de abril de 2016