sábado, 21 de janeiro de 2017

MAS, E O TER A PUTA?


É impressionante como as reações humanas podem ser surpreendentes.

Uma postagem hoje, no feicibuqui, daquelas com o novo fundo colorido – propositadamente lilás -, trazia simplesmente uma palavra, que gerou 61 curtidas, um compartilhamento e, entre réplicas e tréplicas, mais de 100 comentários: MASSOTERAPUTA.

É bom que se diga que em nenhum dos comentários alguém supôs que eu pudesse ter engolido o E, depois do P, portanto, não houve inocentes nesse laboratório, uma vez que quem não dá o benefício da dúvida a outrem, não sabe, na práxis, o que é (uma presunção de) inocência.

Em primeiro lugar é preciso que se diga que o número de contatos ali gira em torno de 8.400, porém, apenas 5.000 podem comentar. Desses 5.000 o grande contingente é da Companheirada de Luta, espalhada pelo Brasil e o mundo a fora e, portanto, gente colorida de vermelho, cor do socialismo, da igualdade, da paridade de gênero, das liberdades democráticas, e congêneres.

Em tempos onde cai avião em Parati com ministro do STF dentro, conduzido por piloto hoteleiro-réu-no-stf, a pergunta que se rolava amiúde nas TLs da vida era: “quem eram e o que estavam fazendo aquelas duas mulheres dentro daquele avião?”

A resposta dada pela imprensa foi simples: o piloto hoteleiro-réu-no-stf-amigo-do-ministro-do-stf-e-que-lhe-prestava-favores padecia de dores ciáticas e levava consigo a massoterapeuta, acompanhada da mãe.

PUTA! Concluiu a turba colorida da minha TL, em sua grande, mas não absoluta maioria (ufa, ainda bem!).

E a mãe, já passada dos 50, nem para puta serviria mais, porque “alcoviteira”, era a função que o júri popular do tribunal feicibuqui lhe atribuía, “certamente”.

Pensei, então, não pode ser possível que gente tão colorida de vermelho esteja concluindo de forma tão monocromática, sintomática de tempos irracionais, onde se perde a sanidade, mesmo a despeito das bandeiras de liberdade (tenho visto).

Lembrei-me da ultra fala e da ultra escuta, ensinadas por Laymert Garcia dos Santos como meio hábil à desconstrução do fascismo em sociedades inseridas em momentos irracionais.

Mesmo sabendo (e esperando!) uma grande crucificação na ágora feicibuquiana, sou atrevida, vocês sabem, decidi experimentar, arriscar, ultrapassar a cerquinha, ousar postar: MASSOTERAPUTA.

A palavra era só essa; o contexto seria dado pela/o receptora/or da mensagem.

E o resultado foi interessante.

W.a (mulher) e J.t (homem) clicaram na figurinha da carinha chorando: triste, o que me pareceu muito bom, pra começar.

17 pessoas, três mulheres e 14 homens clicaram no “haha”. Outras 42 pessoas clicaram em “curti”.

Um homem começou por comentar: “que maldade”, ao que eu, socratizando, respondi: “de quem?” e ele riu.

Iniciou-se, então, uma série de comentários de gente muito à vontade para ter certeza de que eu estava falando da mulher que estava no avião e que era massoterapEuta.

Dois homens manifestaram o desejo de ter uma (massoteraPUTA) e um deles chegou a falar em combinar os valores inbox (quando se tocou que poderia estar falando de uma moça morta, ficou muito constrangido).

Veio a preocupação com a mãe da jovem morta, que foi chamada de “alcoviteira” e uma colega minha, do Norte, se sentiu à vontade para afirmar que também tinha achado, baseada “nas fotos da moçoila”, mas que não quis tripudiar com a vítima.

Então, Giselle salva a mátria e responde, igualmente com uma palavra (duas?): “e daí?”.

Samuel, sempre a minha direita, mas muito respeitável, se posicionou veementemente contrário à palavra postada, mas não sei se em respeito à mulher ou à morte: “A moça acabou de falecer.

Minha companheira de socialismo e feminismo, Iris, tadinha, quase tevê um treco e precisei dizer a ela o que estava fazendo; foi quando ela pediu licença para comentar com uma música, para ver a reação das pessoas também: “Geni”.

Por zap, começaram a chegar mensagens do tipo: “A ideia de postar o ‘massoteraputa’ era para ver a reação das pessoas ou acusação mesmo?” (na verdade só chegou uma, do Marcelo Veneri, rs. Parabéns, Marcelo!)

Gente que nunca curte ou comenta meus posts veio me pedir para tomar cuidado com o machismo. Legal, consegui chamar a atenção daquela feminista empoderada!

A fotógrafa Cida, que trabalha com empoderamento feminino e esteve comigo durante toda a campanha para vereança em 2014 me deu uma bronca imensa (Valeu, Cida!) e deixou claro: “isso foi bem ruim! Bem ruim mesmo!”

Val, numa análise oblíqua, foi a primeira a chamar a atenção para a hipocrisia: “É uma profissão como qualquer uma. Cada mulher faz o que quiser do seu corpo. Mas não há espaço para hipocrisias”.

“A culpa é da imprensa”, disse alguém.

Alessandra, com apoio de Val, arrebentou: “1- Quer conhecer um esquerdomacho: ensaie falar mal de uma prostituta, passa o dia arrotando justiça social e a noite chorando não ter uns caraminguás para ir no bordel da Molly. 2- Interessa muito se pararem de ser puritanos e acordarem para o fato que a corrupção está sim ligada à prostituição. Lamento informa-los que boa parte do terror que a classe trabalhadora enfrenta é decidido por senhores dos diversos poderes mergulhados em jacuzzis com essas ‘massagistas’.

Uma ou duas amigas postaram algum protesto em suas próprias TLs, em relação ao PUTA.

Enquanto escrevo esse texto, quase seis da manhã, percebo o quanto a coisa foi longe, ao receber uma mensagem de zap do meu filho, que diz: “Tem um amiga minha sua eleitora que ficou braba. Com sua postagem.  E queria te falar a critica. Ela eh de um grupo feminista que ficaram braba com sua postagem massoteraputa”.

E me passou o áudio da irmãzinha que diz: “Oi Tânia. Eu tenho um grupo feminista que ele é um grupo fechado. E apareceu tua postagem lá sobre a massoteraputa, né. E as meninas te criticaram muito, acharam muito cínico da sua parte, acharam muito falso também, porque, assim, o que elas disseram: ‘ela é puta? É. Mas, não é o caso agora, ela morreu. E as mulheres estão lutando pra isso, porque, há uma troca, né? Ela não é puta porque ela é sem vergonha! Ele também, porque, ele aceitou ficar com ela, tem uma troca, entendeu? E você acabou denegrindo a imagem de uma menina que não é legal, isso é contra o movimento, então, ficou meio queimado pra você isso, entendeu?”.

Tava indo bem na crítica, mas precisa aprender a não usar mais o verbo denegrir; isso também é contra o movimento e fica queimado pra caramba pra você, irmã!

Marcílio Lima foi enfático, firme na crítica e manifestou indignação em mais de um comentário, finalizando por dizer: “Tânia Mandarino, você pode fazer melhor!”

Outro dia, num bar, onde estava reunido o pessoal da esquerda, logo após aquela situação tenebrosa da garota carioca estuprada por 30 homens, um ex dirigente sindical, pessoa muito respeitada na nossa banda, fez a seguinte afirmativa: “Feliz do primeiro, tristeza para o último”.

Uma Companheira que estava lá o escorraçou e parece que ele teve que sair corrido do lugar, mas alguns meses depois, postou em seu feice que as bailarinas de um determinado programa tinham que ser escolhidas mais magras.

Apagou, assim que eu respondi que mulher não é mercadoria para satisfazer o seu desejo estético. Apagou, me deletou e bloqueou (eu achei ótimo!).

Hoje ninguém me deletou pelo MASSOTERAPUTA.

Quando meu nome foi escolhido para ser candidata à vereadora, eu tinha acabado de receber a queixa de uma companheira, de que um dirigente nosso tinha visto a filha dela, jovem, entrando no bar de mãos dadas com outro jovem e se dirigido a ela, mãe, com as seguintes palavras: “sua filha é a mó gostosa; eu só não pego ela em respeito a você e ao fulano (pai da jovem”).

Eu levei isso adiante. Penso que um dirigente socialista não pode se dirigir assim a uma mulher, como se ela fosse um pedaço de carne, uma coisa que só não dá pra ele porque ele respeita os pais dela, como se não fosse dotada de vontade e poder de escolha.

Sobretudo, porque também não deve se dirigir assim, à mãe da mulher: como se ela devesse ouvir do seu desejo pela filha, jovem, e eventualmente ser a alcoviteira, que é o que lhe restaria, diante da juventude que perdeu.

Esse mesmo julgamento tem se reproduzido hoje, nas redes, em relação a Maira Lidiane e sua mãe, Maria Ilda. “a filha era objeto de consumo e a mãe foi junto para quê” – é o que se lê e escuta das bocas mais libertárias que bocejam por ai.

Quando eu levei o caso adiante, lá atrás, deixei de ser a candidata ideal.

Sim, a minha candidatura foi boicotada por machistas de esquerda que passaram a me olhar diferente quando me atrevi a falar em comissão de ética a dirigente que trata mulher como coisa, ou como um pedaço de carne sem vontade própria, e eu tenho dito que um dia iria falar sobre isso, pois a palavra liberta.

“Essa candidatura começou do jeito errado”, eu ouvi do companheiro a quem ousara denunciar, - não para queimar na fogueira, mas para dialogar/educar.

Mesmo assim, com os apoios, outrora postos, ali retirados, eu fui até o final, contando com apoio de outros/as Companheiros/as que desconstroem diariamente seu machismo, assim como nós.

Se vocês querem falar sobre machismo, temos que enfrentar essa questão também.

Se querem enfrentar a mulher que escreve massoteraputa na sua TL, devem enfrentar o companheiro que nos trata como algo inventado a seu dispor e bel prazer.

Se querem reunir-se em seu grupo fechado de feministas para avaliar a postagem da ex-candidata com apenas uma palavra (massoteraputa), devem se despir do racismo implícito no termo “denegrir”.

Além disso, se a palavra puta choca tanto vocês, eu vou aproveitar para lhes dizer, com toda a liberdade que eu conquistei nessa vida, que NÃO! EU NÃO GOSTO DE SER CHAMADA DE VADIA!

Eu gostei da discussão, e me coloco aqui para dar sequência, agradecendo a todas e todos que se manifestaram na postagem, contribuindo imensamente com a discussão.

Em tempo, é preciso que eu declare que não pretendo jamais voltar a ser candidata novamente e nem me envolver em qualquer campanha eleitoral; a democracia representativa é um porre e eu estou sem paciência para essas chatices. Me chamem para construir a democracia participativa, que eu vou.

Me chamem para aprender mais sobre feminismo, também; mas, por favor, só em grupos onde os homens não forem proibidos, ainda que eu não abra mão dos momentos que a gente disser que serão só da gente, mas que isso não seja uma regra.

Eu quero tudo o que permeia o socialismo que liberta.

Que liberte a Maira daquele avião, onde ela morreu pedindo socorro por 40 minutos; que liberte a Maria Ilda de comentários como “a alcoviteira interesseira morreu porque implorou pra ir junto desfrutar do final de semana em Paraty”.

Que nos liberte de praticar o verbo “denegrir”, bem como outras orações de sujeição e opressão.

Que liberte as PUTAS de servirem à corrupção, que está ligada à prostituição, para que possam(os) ser somente putas de si(nós) mesmas.

Que nos liberte de ser acessórias, para protagonizarmos a sociedade produtiva, como força de trabalho principal, paritariamente e com reais possibilidades de caminhar lado a lado, seja lá com quem for.

Que sejamos putas de nós mesmas, simplesmente para ser. Livres da opressão que nos é imposta, diária e sutilmente, na delimitação das medidas do nosso corpo, na castração do nosso prazer, na romantização dos papéis de filha, mãe, esposa, companheira, avó... Imposta pelo olhar de quem nos destrói aparentando amar, nessa maldita sociedade escravagista/capitalista/burguesa, que a todas as sensíveis relações esgota e engole.

Eu postei apenas uma palavrinha (na verdade uma puta palavra!). As ilações ficaram todas por conta de vocês.

Não, eu não quero o seu voto. Exijo apenas o seu respeito!

Obrigada! De nada!

7 comentários:

  1. Muito Bom companheira! Vocês contribuem muito para desconstruir meu machismo moral,floral e, social...

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  2. Parabéns Tânia, te conheci pela internet e depois ao vivo e a cores,gosto é admiro muito a tua postura. Tem todo o meu apoio e construção e continue. Bjs

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    1. Obrigada, Julia, querida, a admiração é recíproca, construamos juntas! Há braços.

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  4. Gostei muito de sua posição. Poucos teriam coragem de expressar desta maneira. Parabéns Tânia Mandarino!!

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    1. Obrigada pelo olhar generoso, que me constrói, Valdinéia. Juntas!

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