terça-feira, 21 de agosto de 2018

Chamado à ordem: respeitem Alcione!


É preciso sempre nos perguntar o modo pelo qual as coisas foram produzidas, ensinou, um dia, o velho Carlos Marques. Por isso, convido linchadoras e linchadores em geral: vamos falar sobre Alcione?

O seminário “Elas por Elas” é promovido pelo CNJ e conta com autoridades femininas, da iniciativa privada e pública nos debates.

Na data de ontem (20) reuniu no STF representantes de vários segmentos da sociedade e as lideranças dos principais órgãos de Justiça, hoje presididos por mulheres. Ok, mulheres que, desgraçadamente não nos representam e a hipócrita presidente do STF, ontem, defendeu a união de homens e mulheres para a construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

Certo, a gente sabe que da parte dela é tudo blá, blá, bla.

Fez parte do blá, blá, blá de Carmem Lúcia dizer que vários órgãos federais têm mulheres na direção além do STF, como o Superior Tribunal de Justiça (STJ), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Procuradoria-Geral da República (PGR), a Advocacia-Geral da União (AGU) e o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU).

Que merda, igual a Carmem Lúcia, nenhuma delas, também, nos representa.

Laurita Vaz, Raquel Dodge, Cristina Machado, Grace Mendonça e Rosa Weber são mulheres a serviço do patriarcado e da manutenção dos privilégios da elite e falam bonito repudiando a violência contra a mulher e enaltecendo a necessidade de "libertação de mulheres, que continuam não tendo direito de pensar, de falar e de ter acesso a uma boa educação”, mas são falas vazias, porque, enquanto falam, assim, em rosa antigo, ou até mesmo em lilás, seguem servindo ao patriarcado e seus discursos servem mesmo é para justificar outras graves violações ao Direito e à Justiça, tornando-as palatáveis.

Além das mulheres ligadas ao judiciário, o seminário “Elas por Elas” também teve um segundo painel com o tema “A mulher e o poder na sociedade”, que contou com as presenças de Luiza Helena Trajano, Maria Silvia Bastos Marques, Lucia Braga, Ana Maria Machado, Betânia Tanure e Alcione.

Não vi ninguém esquartejando a Luiza, mulher branca e empresária, mas o que estão fazendo com a Marron é inaceitável!

Alcione participou ativamente da campanha que levou Dilma à presidência em 2010 e cantou em evento chamado "A Primavera dos Direitos de Todos".

Não é demais lembrar que a Rainha do Samba nasceu Alcione Dias Nazareth, em 1947, no Maranhão, filha de pai policial que tocava na banda militar e era professor de música.

Alcione nasceu negra.

Há pouco mais de um mês, em 03/07, Alcione passou por um cateterismo, após ter sido internada às pressas no Sírio Libanês com dores no peito e perdeu 25 quilos, por conta do problema de saúde. 

Em 2012, Alcione cantara o hino nacional, ao lado de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, em ato dos royalties no Rio, onde outros artistas também se apresentaram pedindo o “veta Dilma!” 

Já foi condenada a indenizar o filho de cartola, por danos morais, por tê-lo chamado de "mau-caráter" em entrevista a uma rádio carioca, durante comemoração do centenário de Cartola. 

Este ano, gravou o jingle para a campanha de Roseana, no Maranhão. Sim, Roseana Sarney. Em 30 de julho já tinha decepcionado fãs, ao postar foto com Roseana nas redes sociais.

E não pensem vocês que eu sou fã de Alcione, porque, devo confessar, nunca fui uma fã da cantora e seria demais me declarar assim agora. Mas eu nunca me esqueço o que ouvia de minha ex-sogra, pessoa pobre que sempre se julgou membro da nobreza inglesa, quando Alcione aparecia na televisão, há mais de 30 anos atrás: “acho um horror! Parece uma lavadeira que deixou a trouxa de roupa ali do lado e pegou o microfone!”

Só por ser alvo desse desprezo por quem se julga parte daZelites, Alcione já merece o meu respeito.

Eu não preciso que Alcione seja uma pessoa de esquerda, ou uma militante como eu, para entender de onde ela vem e o papel que representa como grande intérprete do samba e fundadora da Mangueira.

Além disso, eu conheço alguns artistas e conheço artistas negros. Nem todos têm a vida ganha e, sobretudo as artistas, mulheres, negras, têm, via de regra, uma dificuldade imensa pra se manterem nesse maldito mundo capitalista. Não sei se é o caso de Alcione, mas imagino que, como artista, ela precise trabalhar e, como artista, mulher, negra, precise, ainda, apesar dos 71 anos que tem.

Então, pouco me importa se ela gravou o jingle de Roseana Sarney, ou se sentiu alegre e festiva ao lado de Carmem Lúcia et al ontem, no STF. E, voltando ao “Elas por Elas”, o que a gente não pode esquecer, é que, no entanto, entretanto e, portanto, o encontro teve o propósito de debater o papel da mulher no Estado e na sociedade. Essa pauta deveria ou não ser nossa?

Não vou linchar Alcione! Ela não tinha obrigação nenhuma de fazer diferente. Além do mais, sou advogada, e não juíza... Via de regra eu defendo as pessoas, e não as julgo.

Basta saber que Alcione é cantora mulher e negra, que, aos 71 anos de idade, tem todo o direito de não ser patrulhada dessa forma ridícula, ou execrada nas redes sociais por tão pouco! Guardem suas armas para os fascistas de verdade! Alcione é do samba e outro dia respondeu muito bem ao Cesar Menotti, quando ele disse que "samba é coisa de bandido"

Eu? Eu fico com a resposta da Alcione:

Eu, Alcione, cantora popular, aprendi a gostar do Samba e a respeitá-lo desde cedo, embora eu seja da terra do bumba-meu-boi, mas eu tenho noção da importância do Samba para esse país.  O Samba construiu minha carreira artística, construiu minha vida, me ajudou a ajudar outras pessoas. É do Samba, a maior linhagem que me orgulho de ter conhecido... Cartola, Nelson Cavaquinho, Seu Aniceto, Nei Lopes, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Martinho da Vila, Jorge Aragão e não acaba por aqui, a lista é muito grande. O Samba é grande. O Samba representa essa nação. O Samba é capaz de fazer a maior festa do mundo que é o CarnavalRespeite o sambista, respeite o Samba, respeite as Escolas de Samba e uma coisa é certa... o Samba é do mundo inteiro, portanto, ME RESPEITE! (Alcione).


Ah, a propósito, a Luiza, mulher branca e bem sucedida não cantou, mas estava lá também.

Viva Luíza! Viva Alcione!

Voltemos nossos canhões para as fascistas certas!

(Tânia Mandarino)